NÃO DÁ PARA ERRAR NA VOLTA ÀS AULAS

O reinício das aulas em Canela, a exemplo do que ocorre em quase todas as demais cidades brasileiras, está no meio de uma enorme confusão. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer. A prefeitura disse que vai seguir a orientação do governo do estado, depois deixou a decisão a critério das famílias, a maioria das quais teme mandar seus filhos de volta à escola, enquanto os donos de colégios particulares pressionam a reabertura com medo de prejuízos financeiros ainda maiores.

Na falta de uma orientação segura, o que parece ser mais prudente é vincular o reinício das aulas à evolução da Covid em Canela porque é aqui que o vírus circula e aqui que ele produz suas vítimas. Educadores e epidemiologistas do mundo inteiro estão de acordo que a intensidade da doença varia diariamente e de cidade para cidade. Assim não dá para alguém em Porto Alegre ou Brasília fixar uma regra geral porque os r

A decisão de voltar ou não às aulas terá que ser tomada aqui, conjuntamente por pais, professores, funcionários e gestores de escolas. Não adianta proteger as crianças e jovens, se as famílias e os professores também não tomarem precauções. Idem para os funcionários de escolas. Tem que haver uma preocupação coletiva muito séria porque se sabe que a doença desequilibra as finanças de doentes e parentes, desorganiza a vida familiar e deixa marcas pelo resto da vida nas crianças sobreviventes.

Oito itens para pensar, muito

Do jeito que o problema tem sido tratado pela prefeitura e pelos jornais da região, uma canetada resolveria o problema. A opção parece ser apenas entre abrir ou manter fechadas as escolas públicas ou privadas. Mas o problema é bem mais complicado do que isto. E para vocês entenderem melhor esta complicação, vamos dividir a nossa conversa em alguns pontos para organizar as informações:

  1. A primeira coisa que vem à cabeça de um pai ou uma mãe é se a volta às aulas é segura, ou seja, não vai haver contaminação pelo coronavírus. O problema está sendo discutido no mundo inteiro e ninguém até agora chegou a uma resposta definitiva para esta pergunta. Ninguém mesmo. Por isto, para sermos honestos, a resposta seria: não há garantias de que seu filho ou filha estará 100% seguro;
  2. Só que a questão não é simples. Há famílias que precisam ter os filhos na escola, ou na creche, porque pai e mãe trabalham. É um problema que não pode ser esquecido;
  3. Há o problema do espaço dentro das escolas. Ambientes fechados e com muitos alunos são um convite à contaminação. Logo as escolas terão que diminuir as turmas para menos de 20 alunos ou buscar áreas maiores. Tudo isto custará dinheiro e será que as famílias poderão custear estas alterações?
  4. O ensino à distância é um complemento emergencial porque 60% dos alunos do ensino básico e médio tem dificuldade de acessar a internet, seja porque não tem os equipamentos adequados seja porque o sinal é fraco ou inexistente. Estudar numa telinha de celular é muito complicado e mexer com os dedos no teclado exige muita paciência. No mundo inteiro, a experiencia mostra que o ensino a distância para crianças e adolescentes está longe de resolver o problema criado pela pandemia;
  5. As precauções contra contaminação precisam ser adotadas com intensidade ainda maior entre professores e funcionários porque eles podem ser agentes de disseminação do vírus entre as crianças. Para que as famílias se sintam seguras para mandar seus filhos de volta a escola é preciso que existam protocolos especiais para professores e funcionários. No Amazonas, 342 professores alegaram contaminação por coronavirus após 20 dias de aulas;
  6. Um estudo feito por pesquisadores internacionais mostrou que em apenas dois dias de aulas, ocorreram 808 interações entre alunos numa classe com 20 crianças. Se uma delas for contaminada e não usar máscara, ela pode passar o vírus para 74 pessoas, incluindo colegas, professores, funcionários e sua família.
  7. Não podemos esquecer também o problema econômico. O Sindicato das Escolas Particulares (SINDEPE-RS) garante que 690 das 2,3 mil escolas privadas do estado devem fechar as portas por questões financeiras. Esta drástica redução na oferta de vagas escolares está diretamente ligada ao fato de que 90 mil famílias da classe média gaúcham sofreram perdas de até 50% na renda doméstica mensal.
  8. E para completar, existe o temor de que 6,5 mil professores do ensino privado venham a perder seus empregos, só aqui no estado. Isto só no setor privado, pois o ensino público deve ser pouco afetado já que não depende tanto da renda das famílias.

É preciso conversar, muito

Esta listagem superficial dos problemas envolvidos na volta às aulas mostra o grau de complexidade da questão e como ela precisa ser resolvida através do diálogo entre os vários setores sociais envolvidos. Não adianta decretar o reinício das aulas, se os pais e mães não estão seguros sobre os riscos a que estarão sujeitos seus filhos. Professores e funcionários precisam estar em contato com as famílias para saberem quais as medidas de prevenção que elas adotam e transmitir instruções sobre eventuais casos de contaminação.

O ensino a distância já entrou na rotina escolar, mas é preciso encontrar soluções coletivas para questões como equipamentos e sinal de internet, fatores que dependem mais de governos e empresas do que das famílias e colégios. A crise financeira das escolas e as demissões de professores também são problemas dos pais, porque afetam a educação de seus filhos. O ensino público não cobre todas as necessidades escolares numa cidade como Canela, logo é provável que muitas famílias, em caso de redução no número de colégios privados, não terão onde matricular seus filhos, o que passa a ser um problema social.

Listamos todas estas perguntas e questões para mostrar para você como a volta às aulas num ambiente de pandemia é uma questão complicada e que exige, obrigatoriamente, uma conversa ampla, aberta e desapaixonada entre todo os setores envolvidos na educação básica e secundaria do município. Não é um debate fácil e nem rápido, mas mesmo que os resultados não sejam os que todos esperam, ainda assim é melhor do que nada. O pior que pode acontecer para todas as famílias canelenses é um decreto municipal impondo uma decisão, umfechamento unilateral e escolas privadas ou um boicote geral de pais.

Veja também

CANDIDATOS IGNORAM A COVID EM CANELA

Quem já viu ou ouviu as lives dos candidatos a prefeito e da maioria dos …