Doação obrigatória.  Cada brasileiro doa, sem saber, 70 reais por ano para os fabricantes e comerciantes de agrotóxicos, que recebem cerca de 14 bilhões de reais na forma de descontos anuais no pagamento de  impostos federais.  É um dinheiro que deveria ser usado em benefício dos contribuintes, mas vai  para grandes indústrias químicas e redes de lojas de  produtos agropecuários

Mas não é só isto. Para cada quatro reais que o governo deixa de arrecadar com isenções de impostos aos agrotóxicos, o SUS  (Sistema Único de Saúde) gasta o equivalente a R$ 5,20 no tratamento de pessoas com câncer causado por venenos usados em lavouras de soja, milho, batata e cana de açúcar. 

Tem mais ainda. Desde janeiro de 2019, o ministério da Agricultura vem liberando, em média,  1,3 novos produtos agrotóxicos por dia. Até o dia 24 de junho já havia sido autorizado o uso de 239 produtos destinados a combater pragas agrícolas em todo o país.

Resultado. A soma de todas estas facilidades transformou o Brasil no campeão mundial no uso de agrotóxicos. E entre todos os estados brasileiros, o Rio Grande do Sul é um dos três que mais usa produtos químicos potencialmente cancerígenos na agricultura.  O engenheiro agrônomo Amilcar de Moura (ver texto Água de Canela pode estar…) calcula que desde 2004, cerca de 3.800 litros de agrotóxicos tenham sido lançados nos 1.600 hectares de lavouras aqui perto, em São Francisco de Paula. 

Glifosato – O grande vilão no noticiário mundial sobre agrotóxicos chama-se glifosato, vendido sob as mais diversas marcas, onde a mais popular aqui no Rio Grande tem  o nome de Roundup. O produto foi desenvolvido pela Monsanto, empresa norte-americana especializada em sementes transgênicas e que, em 2018, foi comprada pela alemã Bayer, numa transação  classificada pelos ecologistas como “casamento dos infernos”.

 Apesar da grande pressão internacional contra o uso do glifosato, agricultores gaúchos afirmam que sem ele o cultivo da soja é inviável, porque o produto impede o crescimento das ervas daninhas e garante a eficiência do sistema de plantio direto, quando a palha que sobra após a colheita é misturada à terra, permitindo nova semeadura sem necessidade de limpar o solo.

A França já proibiu o uso do Roundup no país e a justiça norte-americana obrigou a Monsanto a pagar uma indenização equivalente a R$ 1,2 bilhão a um agricultor que apresentou  câncer, depois de usar o produto numa lavoura de milho durante 15 anos. Aqui no Brasil, líderes do agronegócio e ambientalistas travam uma batalha legal sobre o uso do glifosato na agricultura, mas a balança da justiça parece inclinar-se para o lado dos produtores com a avalanche de liberações diárias de produtos químicos para uso agrícola pelo ministério da Agricultura.

As consequências deste triste título do Brasil como “campeão mundial do agrotóxico”, podem ser vistas no dia a dia dos gaúchos em áreas  como mel, cervejas e vinhos.  Veja como e porque isto acontece clicando aqui.

Por tudo isto, não é de se estranhar que 78% dos brasileiros achem os agrotóxicos produtos inseguros e perigosos para a saúde, conforme revela uma pesquisa do instituto Datafolha, publicada no jornal Folha de São Paulo  (Exige cadastramento para acesso).  Para 72% dos entrevistados, os alimentos produzidos no Brasil tem mais substâncias químicas prejudiciais à saúde do que o recomendável.