A pesquisa sobre contaminação da água consumida em cidades brasileiras, feita pelo Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), e sobre a qual falamos no bloco 1, revela  também uma informação ainda mais preocupante para os canelenses. Entre 2014 e 2017, o percentual de cidades com água contaminada por agrotóxicos, entre as quais está Canela,  passou de 75% para 92%.

Não há dados sobre como estaria hoje esse índice de contaminação, o que é ainda mais preocupante e assustador. Para o Promotor Estadual de Justiça, Paulo Eduardo de Almeida Vieira, a CORSAN e a prefeitura de Canela são responsáveis pelo fato da população da cidade estar sujeita, sem saber, a doenças graves e, muitas delas, incuráveis.

No dia 18 de abril, conversamos durante quase duas horas com o promotor Paulo Eduardo sobre como o Ministério Público Estadual pretende obrigar a CORSAN e a Prefeitura de Canela a analisar a qualidade da água  e divulgar os resultados à população.  Nesta primeira parte  da entrevista, ele explica como funciona o sistema de concessões no fornecimento de água potável e diz que a CORSAN é uma “empresa irresponsável”.
Ouça o trecho:

O promotor Paulo Eduardo revela como a CORSAN engana a prefeitura e a população com dados que não mostram a contaminação por resíduos de agrotóxicos, incluindo alguns metais pesados, jargão técnico para metais perigosos à saúde.  A empresa só menciona os coliformes fecais, bactérias existentes no intestino humano e eliminadas pelas fezes.  Ouça:

A CORSAN não faz análises periódicas da qualidade da água porque não quer gastar dinheiro, atitude que é tolerada pela prefeitura de Canela, explica o promotor:

Falta transparência dos órgãos públicos na questão da água. Há anos não se divulga nada. A CORSAN pode ser considerada a maior poluidora do município. Confira a opinião do promotor estadual:

Agora saiba quais as providências que o doutor Paulo Eduardo pretende adotar. Mas antes de você ouvir a resposta, precisamos explicar alguns termos técnicos usados pelo promotor. Quando ele fala em  “montante “  ele se refere à área do rio  que está antes do local onde  é captada a água para uso doméstico. “Jusante” é a área situada depois da captação, geralmente algum reservatório.

O acompanhamento da qualidade da água vai significar gastos. Perguntamos ao promotor se isto não elevaria  o valor cobrado nas contas de água e esgoto.  Ouça a resposta:

O que você acaba de ouvir dá uma amostra não só da gravidade do problema como também dos obstáculos administrativos e jurídicos vinculados ao problema da contaminação da água de Canela por  resíduos de agrotóxicos.

No dia 29 de julho, uma reunião entre representantes do Ministério Público Estadual e de duas secretarias da prefeitura de Canela chegou a um acordo de que a Secretaria do Meio Ambiente será a responsável por cobrar da CORSAN um plano detalhado e regular de monitoramento da qualidade da água fornecida aos moradores da cidade.

O acordo foi firmado para eliminar divergências entre as secretarias de Saúde e do Meio Ambiente surgidas após a entrega à prefeitura do parecer elaborado pelo Gabinete de Assessoramento Técnico do Ministério Público Estadual reiterando as conclusões de quatro outros pareceres elaborados pelo órgão desde 2010.

Todos os documentos recomendam a adoção de sistemas mais aprimorados para análise da água da Corsan, mas a prefeitura de Canela nunca os aceitou.

Apesar da resistência do prefeito Constantino Orsolin em seguir as orientações do Ministério Público, mesmo após a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), existe agora a expectativa de que o novo secretario do Meio Ambiente, David Keller da Silva, exija da concessionária urgência na apresentação de um novo plano de monitoramento da água de Canela.

Existem várias formas de contaminação da água potável, mas os agrotóxicos são a pior delas porque os resíduos químicos se acumulam silenciosamente no organismo humano, durante anos, antes de aparecer na forma de uma doença incurável.  É uma ameaça à saúde humana difícil de ser combatida porque o agronegócio mundial depende dos agrotóxicos. Mas nem tudo é tão assustador.  Zonas Livres de Agrotóxicos  são uma alternativa possível , como mostra o engenheiro agrônomo Amilcar  Mielniczuk de Moura.