MINHA PASÁRGADA / Projeto Santa Sede

Por Zorday Prati  (*) – Na primeira vez que fui ao Paraíso, a vida andava serena. O branco ainda não havia tomado conta de todos os meus pelos e havia construído uma bela família, tipo, comercial de margarina.

Um amigo meu que lá vivia, sempre chamava pra visitar mas, sabe-se lá porque, nunca íamos. Pra mim pessoalmente o paraíso não existia. Era um lugar como qualquer outro. O Paraiso que conhecia e que frequentava diariamente era o Bar. Sempre havia um bar para chamar de meu. Um lugar pra ver amigos e sarar as chagas de uma vida atribulada de empresário na cidade grande.

Um dia decidimos. Vamos visitar o Paraiso. Chegamos numa noite de primavera. Nosso destino ficava no topo da cidade. De lá podia-se ver as montanhas e as luzes das cidades num vale distante. Tinha-se a impressão que o céu descarregava estrelas sobre nossas cabeças atordoadas com tanta beleza.

Havia uma atmosfera fantástica, serena, quando a gente sente o que nunca sentiu. A morada de meu amigo ficava na beira de um penhasco profundo de onde se podia ver as montanhas que margeiam o mar. Para isto bastava se virar na cama em direção ao horizonte. A ampla janela era como uma tela de belezas incomparáveis a nos dar bom dia.

As pessoas da cidadezinha próxima, eram gentis. Cumprimentavam sorrindo e não se sabia de casos de violência. A casa de meu amigo ficava solitária na montanha o que significava um silêncio e uma paz que convidava à reflexão e descanso inimagináveis para alguém que deixou estes sentidos na infância em uma fazendo nos pampas gaúchos e que viveu sempre em meio aos perigos da cidade má.

No amanhecer saímos para caminhada numa floresta que margeava o precipício e o vale lá em baixo. No caminho pássaros nativos acompanhavam nossos movimentos como se amigos fossemos. A sensação era de que davam boas vindas aos intrusos no seu espaço, o que assegurava que até aquele momento viviam sem ameaças do homem moderno. Não havia no paraíso o que conhecemos por homem moderno. Aliás até hoje não sei bem o que isto significa, mas isto é outra história que não cabe nesta do meu paraíso.

Sei que a partir desta visita voltamos sempre que podíamos para visitar meu amigo.

Num destes finais de semana quando chegamos ainda era dia e havia uma placa de vende-se na casa que ele morava. Lemos a placa e, ato contínuo, declaramos: vamos comprar. No retorno juntamos as economias da família e compramos o Paraiso, afinal sempre achei que lá encontraríamos a felicidade. Manuel Bandeira em seu poema Vou-me Embora pra Passárgada dizia que onde ele vivia não era feliz e que por isto iria embora. Que lá poderia tudo. Seria amigo do Rei.

Nós também buscávamos a felicidade por isto compramos nossa Passárgada.

Passadas duas décadas de vida no paraíso, ele continua lá. Um tanto diferente. Os tucanos se foram, assim como os bugios. Existem outras casas próximas e o silencio diminui o tom. Uma vez no paraíso a felicidade ainda existe e mora aqui ao lado. Ao nosso alcance. Depende mais de nós do que do paraíso. Manuel bandeira estava enganado, meu amigo Mattoso se foi e Canela, decididamente, já não é mais a mesma.

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Crônica produzida a partir de um texto de Clarice Lispector, definindo “uma imagem de paraíso”. Texto integrante do projeto Santa Sede, um parceiro do Te Liga,Canela

(*) Zordai Prati é empresário e diretor da Safe Park/ Gramado