Continuando em nossa série de entrevistas sobre a crise no Hospital de Caridade de Canela e a busca de soluções para o problema, entrevistamos uma especialista em gestão hospitalar. A entrevistada pediu anonimato.

P – O Hospital de Canela passa por uma crise, com dívidas acumuladas de aproximadamente 13 milhões de reais, seguidas trocas de gestão e um péssimo serviço prestado a comunidade. Em meio a tudo isto, o atual prefeito da cidade anunciou a construção de um novo hospital a ser financiado pela iniciativa privada que em troca receberia o terreno onde hoje estão as ruínas do cassino. O que pensa a respeito?

R -Sobre construir um hospital privado, teria que entender melhor o objetivo, se for atender pacientes de convenio acredito que a iniciativa privada teria interesse e isso possa ocorrer, porém quando se fala em atendimento SUS, se não for muito bem negociado e mantiver a proporção 60% SUS e 40% particular fica inviável.

P- Com base na tua experiência, qual modelo de hospital tu considera ideal para uma cidade como Canela?

R- Se eu fosse gestor da cidade eu proporia centralizar o atendimento hospitalar das duas cidades (Gramado e Canela) em um só local, ou melhor, ainda, sugeriria a construção de um hospital entre Gramado e Canela. Investiria os recursos das duas cidades juntas (poderia incluir Três Coroas e São Francisco também) para oferecer um serviço de qualidade e com segurança para a população. Com recursos dos dois municípios torna-se muito viável oferecer um serviço a altura da população de Canela e Gramado. Destaco a necessidade de qualquer modelo trabalhar de acordo com as normas mais modernas do segmento hospitalar (“compliance”) para garantir que tudo seja feito de forma transparente.

P- No caso de convenio com o hospital de Gramado, ele teria capacidade de fornecer atendimento também aos canelenses?

R- Teria que ampliar unidades de internação para casos mais complexos. É claro que no caso dos atendimentos de emergência haveria necessidade de uma UPA em Canela para urgências e emergências.

P- Qual porcentagem de atendimento ao SUS é tida como satisfatória para um Hospital?

R- Um hospital não é viável se trabalhar acima do limite preconizado para ser filantrópico que é 60% SUS e 40% Convênios. Dentro desse percentual se faz viável se bem gerenciado.

P- Qual tua opinião sobre as declarações do poder publico sobre o prédio atual, onde alegam que não tem mais condições estruturais por ser muito antigo?

R- Não concordo, não tenho conhecimento técnico, o ideal era pedir uma parecer para um engenheiro, mas tem hospitais muito mais antigos em condições. Acho que uma reforma e modernização seriam suficientes. Além disso, a localização central é privilegiada, o acesso é fácil.

P- Sobre intervenções da prefeitura nas gestões hospitalares. Acha uma saída inteligente?

R- Não acho o ideal, acredito que deve haver parceria e uma prestação de contas transparente, com isso não há necessidade de intervenção, a intervenção é valida e importante em determinados casos, mas deve ser temporária.

P- Esse novo hospital dizem que seria 100%público. Acha viável para Canela?

R- Se fosse um hospital da prefeitura poderia ser 100% publico, mas acho que financeiramente inviável e nem interessante pra população, pois muitos canelenses têm convênio. Para ter equilíbrio financeiro, o hospital precisa de convênios com entidades privadas para não ficar totalmente dependente do SUS.

P- Há denúncias de que o HCC nunca teve uma gestão técnico hospitalar qualificada. Qual tua opinião sobre isso?

R- Esse é o principal motivo para o endividamento, falta de gestão técnica. A qualificação da gestão reduz custos, proporciona melhores negociações, beneficia em contratualizações com o governo e saúde suplementar, qualifica a mão de obra, entre outras inúmeras vantagens. Se o hospital nunca teve, como foi apurado, provavelmente tenha sido esse o problema. Existem profissionais qualificados no mercado e com experiencia em reestruturação, redução de custos, etc. Essa seria uma boa atitude para iniciar.

P- Mencionas a possibilidade de comprar serviços do hospital de gramado. Com base na tua experiência profissional terias alguma outra sugestão para o HCC?

R- A solução em minha opinião seria primeiramente investir em um gestor qualificado, que realizasse um diagnostico, um levantamento do passivo (com circularização das dividas) e uma projeção de fluxo de caixa para deixar o hospital viável. Após essa avaliação poderia ser estudada a possibilidade de uma integração (ou unificação) dos serviços hospitalares entre Gramado e Canela. O que não pode ocorrer são dois hospitais, situados muito próximos um do outro, possuírem duplicidade em serviços médicos de alta complexidade e de custo elevado. As duas cidades deveriam alinhar os seus serviços médicos para qualificar a prestação de serviços de saúde às respectivas populações.