Falta de gestão profissional, a maior
doença do Hospital de Caridade de Canela

Nós já entrevistamos enfermeiras e especialistas em gestão
hospitalar. Agora vamos ouvir quem já administrou o Hospital de Caridade de
Canela, como o atual vereador Jerônimo Terra Rolim.  Eis a sua visão sobre a crise no HCC e sobre
o projeto de construção de um novo hospital para Canela.

P- A partir de tua experiência como gestor do HCC, qual o
grande problema do hospital hoje?

R – O grande problema hoje é um legado de falta de administração e de falta de gestão. A Legislação Federal diz que o hospital para manter seu equilíbrio financeiro necessita ter no mínimo 60% de seus pacientes pelo sistema SUS e os restantes 40% com atendimento particular. Apenas os hospitais universitários e federais podem manter um atendimento 100% dedicado aos contribuintes do SUS. O Hospital de Caridade de Canela faz 85 a 90% dos seus atendimentos na conta do SUS,  o que significa que a cada R$ 10 reais que entram no caixa do hospital, ele gasta R$12 para prestar o serviço ao paciente SUS. Claro que isso precisa de uma análise técnico contábil para ter os valores certos, mas serve como exemplo.

O
que vem acontecendo é que existe uma falta de gerenciamento técnico hospitalar,
devido ao jogo político de colocar em cargos diretivos do HCC os amigos do
prefeito, vereadores que não conseguiram se eleger ou executivos que
confundiram a gestão de um hospital com a de uma fábrica ou bar.

P- O hospital já teve uma gestão profissional?

R – Nunca teve. Foi o que eu estava buscando na minha gestão, mas existe uma máfia muito grande nessa área com pessoas interessadas na quantidade de dinheiro fácil que envolve o SUS. O ex-diretor Antonio Saldanha estava colocando uma administração mais ou menos técnica hospitalar, mas ele foi retirado nesta intervenção e a prefeitura trouxe uma empresa que cobrou 60 mil reais mensais para gerir o hospital durente seis meses. A empresa não conseguiu sequer instalar um equipamento de raio X no HCC. O Antonio Saldanha em 1 ano reduziu o déficit de 4 milhões para 1 milhão. Porque? Ele como economista organizou o fluxo de caixa e estava indo muito bem até o governo do estado do Rio Grande do Sul parar de mandar dinheiro para a prefeitura de Canela, alegando falta de condições financeiras. Retiraram o Saldanha e a prefeitura retomou com a administração hospitalar. Nunca teve tanto dinheiro na saúde como agora e nunca a saúde esteve tão ruim.

P – O que vai acontecer com a dívida do hospital?

R – É o que a gente quer saber. Eu hoje como advogado não
gosto de intervenções da prefeitura e prefiro como estava antes com o Saldanha.
Porque hoje se eu tenho um crédito com o hospital de 200 mil reais e não
consigo receber de jeito nenhum, agora posso cobrar da  prefeitura. Hoje quem assumiu essa dívida foi
a sociedade de Canela, enquanto houver uma intervenção do governo municipal,
nos canelenses somos os responsáveis.  A
prefeitura tem sorte que os credores não estão vindo cobrar, se eles vierem, é
a comunidade que vai ter que pagar.

P – Qual hospital seria ideal para Canela? E pode ter?

R – Temos que ter um Hospital igual o nosso, só que não com
tantas dívidas. Que ele atenda de media a alta complexidade, que ele possa
fazer cirurgias. Que o hospital tenha gestão técnica hospitalar e que atenda
pacientes na proporção de 60% do SUS e 40% particular. Mas que tenha técnicos.

P – Acha que o hospital atual precisa ser demolido e
construído um novo?

R – O edifício encontra-se em bom estado, tem um número de
leitos super razoável. O único problema é a gestão.

P – A prefeitura alega que o prédio é antigo e não tem mais
condições de reformas. O que pensa sobre isso?

R – Não dá pra que? O hospital Santa Casa tem 70/100 anos.

P – Na tua opinião, a localização do novo hospital é adequada?

R – A localização do atual sim, é perfeita para o canelense.
No Canelinha, com todo respeito, quem mora no Santa Marta não vai conseguir se
deslocar rapidamente na hora do rush. É só conversar com qualquer motorista de
ambulância ou bombeiro. Eles ficam de cabelo em pé se tiverem que ir de um
extremo a outro da cidade. Não há mobilidade urbana.

P – Uma das grandes dúvidas do Te Liga é quem vai gerir o novo hospital. Qual
tua opinião sobre isso?

R – Eles não sabem. Tu já leu o edital? Eles falam em um
hospital público, um hospital público é 100% SUS. Quem vai manter, se não for a
prefeitura? É um projeto que não tem pé nem cabeça. Não tem nenhuma explicação,
isso é um devaneio. O que vai acontecer com os 140 empregados que trabalham
hoje no HCC e nunca receberam fundo de garantia. E os 25 milhões em dívidas que
eles dizem. Qual o plano de ação?

Com todo respeito, a saúde não tem plano de ação nenhum, a
saúde não tem projeto nenhum. O novo hospital é uma jogada política, isso não
tenho dúvida.