CANELA

Por João Ferraz – A canela, uma especiaria dos deuses, vem da casca de uma árvore, a caneleira, e sua origem é asiática. Chegou ao Brasil através dos colonizadores, e aqui se adaptou  perfeitamente, principalmente no sul do país. Quando ralada possui uma cor marrom acastanhado. Muito usada na culinária, tanto doce como salgada, esquenta o coração e também a libido. O nome canela vem do latim cannella que significa “tubo pequeno”, que  é o formato que a casca adquire quando retirada da árvore. Em inglês chama-se  cinnamon eu gosto do som dessa palavra e, além disso, adoro um pão doce  estadunidense chamado ‘cinnamon holl’, isso sim que é dos deuses. 

Morei no Rio de Janeiro por 50 anos. Nunca havia pensado em me mudar! E nas poucas  vezes que essa ideia vinha, como uma remota possibilidade futura, eu pensava em  capitais do nordeste. Mas quem manda é o destino, e esse cara é meio troglodita. Abriu  uma porta, me deu um “pedala Robinho”, um belo ponta pé na bunda e fez-me mudar de  vida completamente. 

Mudei-me para Canela há três anos. Vim para ficar mais perto dos meus pais que já  estão numa idade que precisam de um cuidado maior e para me curar. Apesar de amar o  Rio, onde estão minhas raízes e memórias, lá, eu estava bem doente, apático, sem  energia, sem trabalho, sem grana, preso a vícios e a relacionamentos envelhecidos.  Canela surgiu como uma possibilidade de ser a minha Canaã, ou com menos poesia,  meu hospital. 

Caneleira / foto Wikimedia CC

Cheguei na terça-feira de carnaval e achei bastante auspicioso. Fui dar um passeio pela  cidade e quando cheguei à praça principal estava tendo a apresentação do Bloco dos  Artistas, com os artistas canelenses se apresentando no palco. Muito samba rolando e  até a bateria da Liga Carnavalesca e até a rainha da bateria estava presente. Senti-me  em casa e logo me juntei aos foliões! 

Aluguei uma casinha bem bacana no Centro, próximo ao Parque do Lago, atrás da  Catedral de Pedra. Aprendi que aqui é assim que se fala onde mora e não pelo nome da  rua. Minha filha mais nova veio morar comigo. Santa salvação! Então juntos, começamos  a desbravar Canela. Conhecemos a FLONA, a Floresta Nacional de Canela que para os  canelenses tem o apelido de IBAMA. Fomos voluntários para limpar uma das trilhas.  Nesse dia, conhecemos diversas pessoas, o Grupo de escoteiros, o chefe da Flona, o pessoal do grupo Ecorumo, e a Isabel que nos deu carona de ida e volta, levou pinhão  cozido para a galera e com grande maestria organizou o almoço para a turma toda. Uma  pessoa engajada na questão ambiental e que me convidou a participar de movimentos da  cidade.

O teatro fez parte de um grande momento da minha vida e foi profundamente  transformador. Chegando a Canela, que já abrigou o Festival Internacional de Teatro,  achei que podia retomar essa história neste novo momento da minha vida. E nessa busca  encontrei Lisi que além de abrir as cortinas do teatro, trabalhou com minha cabeça como  nos meus melhores momentos de terapia. Senti-me provocado, colocado em movimento,  desnudando as minhas couraças e novamente sentindo esperança e liberdade. 

A teoria do caos, diz que pequenos movimentos produzem consequências imensas no  futuro, o exemplo mais conhecido é o efeito borboleta, onde o bater das asas de uma  borboleta em Canela pode produzir um furacão no Japão. Soube que aos sábados pela  manhã acontecia a Feira Ecológica no espaço Canela Rural. E lá fomos eu e minha filha,  ver qual é dessa feirinha. No Rio eu não perdia a feira livre no bairro da Glória. Sempre gostei desse buchicho. Chegando lá, vi que era diferente, mas também era parecido. Tinha um viés familiar e me trazia uma sensação de saúde. Produtos orgânicos, artesanato e, o principal, pessoas. Encontrei amigos e hoje sou um dos feirantes. Ô sorte! 

Com os amigos vieram projetos, vivências e convivências. Mas ainda sentia falta de  algumas coisas do Rio como um bar para chamar de meu, festas na rua e o mar. Cada  vez mais, tenho certeza que o nosso Lar está dentro da gente e nas pessoas que  escolhemos como parceiros. Conheci Jefe, e nessa parceria, montamos um bar na  feirinha, o Ecoboteco. Fizemos também um bloco de carnaval, o Sebo nas canelas, festa  junina “Um arraiá dus bão” e a festa ecotober, uma adaptação da festa alemã. Tudo na  rua! E para finalizar a tríade, o cara ainda me convidou para passar o meu primeiro ano  novo de Canela na casa dele na praia. Não era o mar do Rio, mas era o Mar. 

Curei-me! 

Eu me reencontrei com a natureza, com a arte, com a saúde e com o amor. E  parafraseando o grande filósofo Nietzsche – “é preciso um caos dentro de si para dar à  luz uma estrela cintilante”.

 Ah! Quando cheguei não sabia o que procurava, achei uma caneleira, abracei a árvore,  encostei meu nariz em seu tronco e inalei o seu perfume maravilhoso. Faço isso todos os  dias desde que estou aqui! 

(*) Texto produzido para o projeto Santa Sede, uma parceria com o Te Liga,Canela!