Você sabia?

Canela já foi um modelo na região das hortênsias

O aumento do número de pessoas, morando ou visitando a nossa cidade, transformou a questão dos esgotos cloacal e pluvial num grande desafio para todos os canelenses.  Vivemos hoje uma situação crítica por conta do descaso das administrações municipais mais recentes e da empresa Corsan, concessionária dos serviços de agua e esgoto em Canela.  O futuro da cidade está ameaçado pela possibilidade de um colapso no saneamento básico que afetará a qualidade de vida, a saúde dos moradores, e a expansão do turismo na nossa cidade e região.

Até a metade dos anos 90, o procedimento usual e legal da questão ESGOTO era a combinação fossa/sumidouro. Uma solução precária para nossa cidade. Canela possuía em torno de vinte mil habitantes e todos seus mananciais hídricos (córregos, represas, lagos e riachos) dentro do perímetro urbano apresentavam níveis de poluição elevados,  comprometidos pelo mau cheiro, incidência de insetos e aparência turva e contaminada.

Em 1992, a municipalidade de Canela, responsável constitucional pelas águas do município, começou a enfrentar este grande desafio. Após discussões técnicas realizadas, havia dois caminhos a seguir; uma opção que consagrava o esgoto misto e outra de acordo com as melhores técnicas mundiais,  sugeria SEPARADOR ABSOLUTO, REDES DE ESGOTO PLUVIAL E REDE DE ESGOTO CLOACAL SEPARADOS. Devemos registrar que a eficiência do esgoto misto é baixíssima. A decisão por redes separadas  foi a opção tomada à época. Dados estatísticos informam que apenas 22 municípios do Estado possuíam esgoto cloacal nesta época.

No início dos anos 90, a prefeitura de Canela iniciou a implantação de um sistema pluvial com projeto para toda a cidade. Qualquer obra de pavimentação de ruas e avenidas era iniciada com o assentamento de canalização para escoamento da água da chuva, num esquema que previa ampliações conforme a cidade fosse crescendo. Devemos registrar que em 1991 não havia nenhuma rua municipal asfaltada, a primeira foi no distrito industrial. Um sistema pluvial é formado por macrodrenagem e micro drenagem. Quando o sistema pluvial de Canela começou a ser  implantado, a macrodrenagem se limitava parcialmente ao canal no bairro de Santa Terezinha. Todo o restante da drenagem era formado por córregos altamente poluídos à céu aberto que cortavam as ruas da  cidade.

Nesta época por iniciativa da prefeitura foram construídos a macrodrenagem do canal do bairro São José, do Canal do Lago cruzando o bairro loteamento Central, do canal da Vila Boeira chegando ao córrego do Caracol, e a macrodrenagem do canal do bairro São Lucas e beco da Alegria. Inúmeras redes de micro drenagem foram executadas. 

25% dos canelenses já tiveram esgoto público. Hoje, o total é bem menos de 10%, alguns especialistas chegam a falar em 0%

No ano de 1992 tendo conseguido recursos a fundo perdido, Canela projetou, licitou e no ano seguinte iniciou a execução das obras de Esgoto Cloacal, na zona central da cidade,  área mais densamente ocupada. Em 1996 iniciou a operação de esgoto cloacal em Canela. Obra com recursos municipais, foi  implantado uma rede que atendia 25 % da demanda de esgoto cloacal. Por decisão do poder público local este serviço foi entregue a  iniciativa privada. A empresa ESUB, subsidiária da empresa Brita Porto Alegrense, venceu o certame licitatório, na época era das mais importantes empresas de engenharia do nosso estado.

Com olhar para nossa região, assumiu também a praça de pedágio da Região das Hortênsias. O tempo passou, a empresa privada enfrentou inúmeras dificuldades na operação local, nas necessárias obras de ampliação, nos serviços operacionais e nas questões de cobrança tarifária. A operação da ETE-ESTAÇÃO DE TRATAMENTO DE ESGOTO  funcionava de forma satisfatória, mas havia uma insuficiência de atendimento na cidade. A empresa ESUB, não apresentava condições financeiras para novos investimentos, a solução foi buscar outro parceiro nesta operação.

 

A prefeitura de Canela, no início dos anos 2000, construiu com recursos municipais, quatro novas pequenas ETES (Estações de Tratamento de Esgoto) nos bairros São Luiz, SESI, Chacrão e Vila Dante.

 

Depois de 2005, a única obra de macrodrenagem em continuidade ao projeto da cidade, foi o trecho que cruzava o Hotel Bela Vista, onde depois de sua demolição o canal foi concluído, o projeto inicial previa a passagem pelo terreno ocupado pelo Hotel Bela Vista. Com a demolição do prédio, a obra pode ser concluída permitindo a interligação do sistema pluvial do bairro Santa Terezinha ao arroio do mesmo nome.

Foi criado o DAECAN, com objetivo de manutenção e limpeza de redes de esgoto pluvial. Extinto este departamento o sistema deixou de ter limpeza e manutenção adequada nos últimos 15 anos, o que reduziu a capacidade de coleta provocando diversos ALAGAMENTOS em nossa cidade, especialmente na zona central, região mais populosa de Canela.

Passados quase 10 anos, a operação da empresa privada era insatisfatória. Pois não apresentava qualquer alternativa de ampliação dos serviços. Então após analisadas diversas alternativas, a municipalidade optou em 2004 por rescindir amigavelmente com a empresa ESUB e entregar a CORSAN a concessão do esgoto de nossa cidade.

O sistema entrou de saneamento em colapso e a cidade passou a boiar num lençol de detritos

 Lamentavelmente nestes últimos anos, não ocorreram as ampliações necessárias, e as operações das estações entraram em colapso. A ETE do bairro Celulose responsável pelo tratamento de 90 % do esgoto cloacal coletado, parou de funcionar entregando ao arroio Caracol, córrego que nasce no Parque do Lago,  grande quantidade de esgoto in natura.

Os demais 75 % da área urbana não atendida por rede de esgoto cloacal, usam o sistema fossa/sumidouro. Numa cidade com nossas características de solo, muita terra orgânica e onde a rocha aflora em vários pontos, possuímos um solo muito impermeável, onde não ocorre absorção alguma, tornando quase sem função o sumidouro. A parte sólida do esgoto fica retida na fossa, e a parte líquida altamente poluente logo atinge o lençol freático, águas subterrâneas, as águas dos córregos e a rede pluvial, causando mau cheiro aumentando a poluição dos nossos córregos e rios.

Uma ação que precisa ser retomada é a remoção da parte sólida mineralizada nas fossas das residências, que tem vida útil de 4 a 5 anos. Fazendo que o processo de funcionamento das fossas volte a ser ativo. Podemos dizer também, que grande parte das fossas da cidade está esgotada e inoperante.  O efluente deste esgoto também vai para o riacho que deságua na Cascata do Caracol. A cidade de Canela é responsável por 80% da poluição de nosso maior patrimônio natural.

Um grande problema na gestão deste assunto ESGOTO, é a falta de compreensão do papel da CORSAN e da PREFEITURA. A prefeitura tem a responsabilidade constitucional pela qualidade das águas da cidade e a CORSAN é uma empresa de economia mista que presta serviços. Acredito que as duas tem responsabilidade neste descaso.

Mas o esforço não teve seguimento por conta da descontinuidade administrativa causada pela alternância de partidos políticos na prefeitura. A prefeitura precisa ter um projeto bem definido de ESGOTO para nossa cidade e cobrar da concessionária a eficiência da operação de tratamento do esgoto e a continuidade nos investimentos para ampliação de suas redes. Mas nada é feito. Em 2019, em termos de redes de saneamento, pluvial e cloacal, a situação do esgoto em Canela continua a mesma de 2004, há 15 anos atrás, com a diferença que a população aumentou quase 40% .

Por José Vellinho Pinto – Ex-prefeito de Canela