Caminhando

Por Isabel Regina Scheid (*)

Texto integrante do projeto Santa Sede, um parceiro do Te Liga,Canela!

Pega casaco. Pega mochila. Água. Precisa repor a água, mas não precisa encher a garrafa. Caminhada curta, entre 12 e 14km, e hoje não tem sol. Mas preciso lembrar de tomar água. Esqueço as vezes, não sinto sede. Enfim. Foco. Pegar a água. Levo o binóculo, levo a câmera, desisto do binóculo porque nesse horário não tem mesmo muitos pássaros. Meia fina, meia grossa, tênis, bastão, chapéu. Checar mochila – chave, documentos, dinheirinho, celular. Saindo, finalmente. Fico feliz em conhecer tanta gente que mora no bairro.

Aliás, nem conheço de conversar – mas eles me conhecem, sempre ando por aí, e me cumprimentam. Um abano desde a varanda, um bom dia desde o jardim, um olá pela janela. Que bom. E o bairro que segue, uma beleza, ainda muitas araucárias, casas, ruas com paralelepípedos. É. Ainda. Porque tudo está mudando nessa cidade, onde memória e história pouco valor têm. No que vai dar isso? Pensando aqui, como se lida com a mentalidade tosca de quem chegou lá sem ter capacidade para estar lá? Falta capacidade, falta visão, falta planejamento. As vezes falta educação básica. Oba, já na estrada, que rápido. Tomar água.

Nossa, quanta gente aqui. Será que esse lugar é mesmo tão interessante? Mais interessante que o ambiente natural? E essa paisagem, esses pinheiros! Como é mesmo a história? Preciso voltar ao livro do Seu Olmiro. Sempre aprendo algo lá. A memória. A história. De novo. Estou repetitiva. Dobrando aqui para a esquerda, saindo da estrada. Bonita, mas perigosa. Porque só fazem lugar para os carros? Custava um bom acostamento para caminhantes e bicicletantes? E puxa, coincidência, aquele biker que vem pedalando bravamente é o moço da rádio. Adoro a rádio daqui. Tomar água.

Esse bairro é engraçado. Funciona como uma cidade. Gente pobre na periferia, lindas casas nas ruas nobres. Chegando no lago, finalmente consigo justificar a câmera: maçaricos, uma maria-faceira, alguns frangos-d’água. São bonitos esses frangos, com o vermelho na cara. Já vi muitos no Parque do Lago mas parece que só eu os vejo. As pessoas passam indiferentes à eles. Lembro o que diz meu amigo pintor: vivemos uma crise de percepção de paisagem. As pessoas olham, mas não vêem. E eu já estou aqui, no bairro de tomar café. Adoro essa cafeteria. Um bom café antes de enfrentar a volta. Pela estrada? Sim, para fechar o laço, para fechar a distância. Não voltar pelo mesmo caminho. Água. Ruim andar aqui, muito carro. Concentrar nos passos, essa subidinha é cruel. Até que o vigilante me diz: caminhando um pouco? E eu respondo: sim, um pouco, que caminhar é preciso.

(*) Médica veterinária aposentada residente em Canela

Texto escrito para atender ao desafio: fazer uma crônica sobre uma ação desenvolvida pela autora durante os dias de isolamento social.